Segundo a World Health Organization, a Diabetes afeta mais de 400 milhões de pessoas em todo o mundo. Mas não é só nos humanos que esta doença se faz notar. Cães e gatos são também potenciais alvos desta doença, apesar de muitos dos petowners e petloversignorarem esta possibilidade.

 

Diabetes mellitus

Diabetes mellitus é uma doença crónica que se caracteriza pelo aumento da quantidade de glucose (açúcar) no sangue, provocado pela falta ou quantidade insuficiente de insulina presente no corpo. A insulina é produzida pelo Pâncreas e tem como função facilitar a absorção da glucose pelas células, de forma a manter os níveis fisiológicos (ou em linguagem corrente “valores normais”) desta fonte de energia na corrente sanguínea.

Existem duas variantes. Por um lado temos a Tipo 1, na qual ocorre uma falha na produção de insulina no Pâncreas e que é conhecida pela Diabetes dependente de insulina, já que, ao haver esta deficiência na produção, o animal precisará de “doses-extra” de insulina para ajudar a combater os elevados níveis de glucose no sangue. A causa mais comum deste tipo é a Pancreatite, uma inflamação no Pâncreas que diminui a eficiência do mesmo em produzir insulina.

A Diabetes Tipo 2, por outro lado, é desencadeada por outros factores, como são o caso da obesidade e a prática de uma alimentação desequilibrada, baseada no consumo excessivo de hidratos de carbono. Neste caso, independentemente do correto funcionamento do Pâncreas, a quantidade de glucose na corrente sanguínea (hiperglicemia) é constantemente elevada, pelo que esta acaba por desenvolver uma certa resistência à ação da insulina. Apesar dos gatos poderem padecer dos dois tipos, este é considerado o mais comum.

 

 

Deteção e Complicações

Há vários sinais nos nossos cães e gatos que nos podem levar a suspeitar que o nosso amigo padece desta doença.

Dois destes sinais estão intrinsecamente relacionados e são o aumento do número de vezes em que bebe água (constantemente com sede) e o número de vezes que urina. Apesar de poder passar despercebido, o facto de o cão “pedir” duas ou três vezes mais do que seria normal para ir à rua tratar das suas necessidades, o que decerto será fácilmente observável, será o facto de, em certas ocasiões, não aguentar e urinar em casa ou, no caso de um gato habituado, urinar fora da caixa de areia. Relativamente ao consumo de água, um sinal muito específico é começarem a beber em sítios fora do normal, como é o caso da retrete.

Poderá ser notório um aumento de apetite que, em vez de ser acompanhado por um aumento de peso, é seguido de uma descida do peso, pelo que nesta situação invulgar haverá uma maior probabilidade de prender a atenção do petowner e atuar como uma espécie de alarme.

Quando a doença se encontra numa fase mais avançada há certas complicações que se podem manifestar. A opacidade dos olhos é uma delas. Assumindo uma maior prevalência em cães, com o passar do tempo, os altos níveis de glucose no sangue tornam a lente do olho (o cristalino) cada vez mais nublada, causando cegueira, caso não se desenvolva um tratamento de forma atempada. No caso dos gatos, há uma elevada propensão para desenvolver uma maior fragilidade nas patas traseiras devido à lesão dos nervos provocada pelos permanentes elevados níveis de glucose no sangue.

 

 

Factores de risco

Existem certos factores que nos indicam uma maior probabilidade de que o nosso Pet venha a desenvolver a Diabetes. Estes factores não só devem ser tidos em conta na hora de comprar ou adotar, mas também posteriormente de forma a haver uma monitorização continuada.

Poderemos dividir estas condicionantes segundo a espécie a que se destina. Nos cães, as raças mais predispostas a esta doença são os Cocker Spaniels, os Teckels, os Dobermans, Pastores Alemães, Golden e Labrador Retrievers, Lulus da Pomerânia, Terriers e Caniches de pequeno tamanho. Outros factores considerados de risco são a idade (meia-idade ou de idade avançada), a obesidade, as fémeas não castradas e a genética.

Quanto aos nossos amigos ronronantes, a idade também é considerada um factor de risco (os gatos mais velhos são mais susceptíveis), assim como a genética, a obesidade (em Portugal cerca de 30% dos gatos são obesos) e a inatividade física. Outras doenças que provoquem uma diminuição de insulina ou um aumento de resistência a esta, como são o caso da pancreatite crónica ou o hipertiroidismo, poderão desencadear e assoberbar esta doença.

 

Diagnóstico e Tratamento

Para tratar a Diabetes Mellitus, como em qualquer outra doença, deve ser feita uma correta avaliação e diagnóstico da mesma.

Após serem feitas todas as perguntas sobre os sintomas suprarreferidos, é importante realizar uma análise à urina para assim determinar a presença de glucose ou de corpos cetónicos ( moléculas que reduzem o uso de glucose proveniente dos alimentos, fazendo com que o organismo procure outra fonte de energia, como a gordura). Confirmada a presença de glucose na urina proceder-se-à à determinação dos valores de glucose no sangue. Quando são encontrados de forma continuada e simultânea na urina e no sangue, os níveis elevados de glucose confirmam em definitivo o diagnóstico de Diabetes.

A chave no tratamento ou controlo (tendo em conta que não existe ainda uma cura) reside em manter os valores de glucose em níveis normais, evitando valores demasiado altos ou demasiado baixos que possam por em risco a saúde do nosso companheiro.

Para conseguir um controlo adequado, primeiramente serão necessárias injecções diárias de insulina, especialmente na Diabetes Tipo 1 (na qual se verifica uma incapacidade por parte do pâncreas de produzir uma quantidade suficiente de insulina). Estas injecções serão dadas por baixo da pele e, com o devido aconselhamento do Médico Veterinário, são bastante fáceis de administrar, havendo uma caneta (Vetpen) especialmente concebida para esse efeito.

De destacar também a importância da alimentação no controlo desta doença. Em cães uma dieta rica em fibra é muitas vezes recomendada, enquanto que em gatos deverá ser abundante em proteína e baixa em hidratos de carbono. Esta alimentação deve ser posta em prática tendo sempre como referência o peso corporal do animal.

Também a prática de exercício físico é fundamental tanto para cães como para gatos (apesar de, para este último, não ser tão exequível) contribuindo (e muito) para a diminuição dos elevados níveis de glucose. O ideal é que seja regulado e feito de forma fixa e consistente no caso dos cães, de forma a não reduzir em demasia os valores de glucose.

Por último, é recomendável castrar as cadelas cujo diagnóstico de Diabetes foi confirmado, posto que, desta forma, torna-se possível reduzir a procura de insulina por parte do organismo.

 

 

Nos dias que correm, com um tratamento consistente e eficaz, com alterações do estilo de vida e com uma monitorização adequada, um cão ou gato diabético deve ter a mesma esperança média de vida que um animal não-diabético da mesma idade. O diagnóstico precoce juntamente com um tratamento apropriado ajudarão o animal diabético a ter uma boa qualidade de vida.

Apesar da falta de conhecimento desta doença em cães e gatos, se não for detetada e controlada atempadamente, pode chegar a ser fatal para o nosso querido amigo. Atualmente, 1 em cada 100 cães que alcança os 12 anos de idade irá desenvolver esta patologia. No caso dos gatos a probabilidade poderá situar-se em 1 de cada 50.

Cada vez mais, as pessoas consideram os seus animais como membros da família. Como tal, têm o dever de estar atento a todo e qualquer sinal que possa indicar o mal-estar do seu mais-que-tudo e tomar as ações necessárias para o reverter.

 


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